sexta-feira, 5 de março de 2010

SAUDADES DA DGEMN


Se houvesse dúvidas sobre a capacidade e a competência técnica da Direcção Regional de Cultura (DRCLVT) em preservar o património que lhe está afecto, a Baixa Pombalina é um bom exemplo. Se a requalificação geral da Praça do Comércio, pela Frente Tejo SA,  à margem e sem qualquer presença activa da Cultura, colocam inevitavelmente a questão da utilidade e existência da DRCLVT, os dois únicos casos em que este organismo assumiu as suas responsabilidades são um paradigma ontológico de actuação inadequada.
A reabilitação de  acrotérios  - que foi uma das últimas intervenções de referência da saudosa DGEMN, através do projecto, da fiscalização e do lançamento das empreitadas - são agora da responsabilidade directa das secretarias-gerais dos ministérios contíguos, tendo a DRCLVT apenas "recomendado" o seu escoramento* (!).
 Quanto ao Arco da Rua Augusta e ao seu vetusto relógio, reproduzimos o artigo - que diz tudo - do jornalista do JN, Cristiano Pereira, "RELÓGIO DA RUA AUGUSTA HÁ ANOS COM AS HORAS TROCADAS", publicado no último dia do mês passado.    

O relógio do Arco da Rua Augusta, em Lisboa, não funciona correctamente há vários anos. Ou está desacertado ou pura e simplesmente parado. A situação é considerada como "uma vergonha" pelos especialistas. E tudo parece estar numa situação de impasse.
"É uma situação ridícula", afirmou, ao JN, Fernando Correia de Oliveira, especialista em relojoaria, pesquisador do fenómeno do tempo, do fabrico de relógios e da Evolução Mental e autor de livros e inúmeros trabalhos sobre o assunto. "Aquilo é tão central que não passa despercebido", comentou, sublinhando que "não é um relógio de vão de esquina". "Passam ali milhares de pessoas. É uma vergonha", desabafa.
Contactado pelo JN, o relojoeiro responsável pela sua reparação e manutenção, Luís Cousinha (neto do fabricante do relógio), garantiu, por seu turno, que "o relógio não tem problemas técnicos" mas que não está a trabalhar "porque há obras" no interior do arco. O relojoeiro disse que a Direcção Regional de Cultura de Lisboa e Vale do Tejo tenciona "mudar o relógio de onde ele está" para ser "embutido num nicho grande".
Fernando Correia de Oliveira também tem conhecimento dessa intenção de "embutir o relógio na parede" mas considera tal plano "uma coisa completamente espatafúrdia".
O investigador teceu duras críticas ao projecto. "Meteu-se um arquitecto ao barulho que fez para lá um plano muito clean para open spaces e, portanto, o relógio está ali a estorvar".


Perigo público

Na sua óptica, embutir o relógio dentro da própria parede vai criar "uma grande complicação para fazer a transmissão de forças do relógio propriamente dito para os ponteiros" além de outros problemas para os pesos. "O arquitecto devia falar com alguém que perceba de relojoaria para perceber que o que ele propõe é capaz de ser um disparate até com algum perigo público porque se soltam roldanas vem tudo por ali abaixo", apontou.
O JN tentou obter esclarecimentos junto da Direcção Regional de Cultural e Vale do Tejo mas não obteve resposta até à hora do fecho desta edição.

Dar à corda
O mau funcionamento do relógio não parece ser um problema recente. Fernando Correia de Oliveira considerou que "tem estado intermitentemente ao abandono" e que nas últimas décadas o relógio tem passado "sobressaltos muito grandes".
O relojoeiro Luís Cousinha, por seu turno, lembrou que nos últimos anos o relógio trabalhava "quando lá íamos dar à corda" mas admitiu que isso nem sempre era possível e que muitas vezes se deparavam dificuldades no acesso à chave do miolo do Arco.
"Não sei de quem é a incompetência mas devem ser dois ou três factores que ali se foram congregando", apontou Fernando Correia de Oliveira. "Não estamos a falar de levar uma pessoa à lua num space shuttle", ironizou, sublinhando que "ali não há segredo" e que "é muito fácil pôr o relógio a funcionar, não estamos a falar de tecnologia de ponta".
O pesquisador lembrou ainda que "o relógio não chegou sequer a ser ligado ao próprio sino que está no terraço quando isso seria colocá-lo na sua verdadeira função" porque, diz, "o relógio não é apenas para mostrar as horas mas também para bater as horas".

CRISTIANO PEREIRA
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*"ex-DGEMN" propõe, desde já, um louvor ao(s) técnico(s) recomendante(s), no âmbito do SIADAP.
Sugerimos a leitura do nosso post "E' importante pensar(e estudar !) a reabilitação",

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